A paixão pela famosa atriz Maria do Rosário tira o jovem Edson de um estado mental de letargia e marasmo. Entusiasmado, o jovem decide seguir o grande sonho de se tornar um cineasta. No entanto, a questão financeira se torna um grande empecilho para a concretização desse desejo. Na procura por financiamento, Edson acaba sendo injustamente acusado de terrorismo por uma organização da direita, e é preso e torturado por oficiais.
Data de lançamento: 1970 (Brasil)
Direção: Neville d'Almeida
Autor: Jorge Mautner
Música composta por: Fernando Lona, Vidal França
Roteiro: Neville d'Almeida, Guará Rodrigues
Jardim de guerra foi injustamente condenado ao esquecimento pela pseudo-inteligência oficial; e pior, só resta uma cópia do filme sem os cortes da Censura, depositada pelo diretor num arquivo carioca. O filme é resultado da rigorosa formação cinéfila de Neville d’Almeida — freqüentador do Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte — e das economias do período em que o cineasta foi garçom em Nova York. Neville absorveu bem o “ideograma godardiano” e o colocou em prática com um estilo bastante pessoal. Bom gosto, boas idéias, bons planos, noção perfeita do tempo cinematográfico, direção segura e a habilidade habitual da câmera de Dib Lufti fazem de Jardim de guerra um filme superior à maioria das tentativas do cinema de autor da época — tanto do lado Cinema Novo quanto do lado Udigrúdi. Após o lançamento no Festival de Cinema de Belo Horizonte, o filme foi recolhido pelo Serviço de Censura de Diversões Públicas, que o considerou “inconveniente para o momento nacional”.

Só foi liberado dois anos depois, com dez exigências de corte. Os planos excluídos não impediam o espectador (e a crítica) de conferir as qualidades visuais do filme, mas acabavam de vez com o projeto do diretor de fazer um filme que apresentasse os problemas daquele momento. Aliás, o plano de esvaziamento de Jardim de guerra foi mais longe: o filme só conseguiu um lançamento comercial digno seis anos após sua realização. Uma olhada na lista de cortes — enquanto aguardamos a restauração da versão integral do filme — revela o quanto Neville estava empenhado em fazer um filme que fosse a expressão do seu tempo, não só esteticamente. A Censura mandou cortar todos os posters e fotografias alusivos à Guerra do Vietnã e ao movimento feminista na China; num deles mulheres aparecem desfilando e vemos no fundo um grande retrato, em outro, lemos num cartaz: “Deus guarde a união dos povos americanos”. Mandou cortar a fotografia de Guevara. Vários diálogos de Joel Barcelos também tiveram que sair: do panfletário “o corpo em chamas de Che Guevara ainda incendeia as Américas” ao escrachado “América Latina também chamada América Latrina”; ou quando o ator responde em tom de deboche a Emanuel Cavalcanti dizendo “eu sou filho de Guevara”. E se na cópia disponível vemos um Antonio Pitanga bem comportado, na versão original o ator faz um discurso imitando os líderes do “poder negro” americano. Foi preciso cortar todo o resto do discurso depois que ele diz: “Pra vocês eu sou macaco, mas isso vai acabar...”. Um tema ainda em discussão também foi limado: quando Emanuel Cavalcanti fala, projetando um slide, sobre a necessidade de preservação do território do Amazonas, especificamente quando ele fala que o governo anda muito preocupado com o Amazonas e “nós protegemos o Amazonas”. Também ficou de fora o último plano, quando a frase “a revolução é permanente” aparece escrita num quadro negro e envolta por um balão de história em quadrinhos que sai da cabeça de Joel. Eram questões que nem podiam ser pensadas.
Fonte: http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/marginal/filmes/longas/02_01_09.php