Baseado em conto homônimo de Olney São Paulo, o filme é uma alegoria de regimes autoritários, e é ambientado em um país fictício da América Latina. Retrata um casal de estudantes que segue para uma passeata onde o rapaz, um militante, lidera um comício.
Data de lançamento: 1969 (mundial)
Direção: Olney São Paulo
- O diretor exibiu o filme em sessão especial no MAM para alguns amigos cineastas. Com medo de possíveis cortes, antes de enviá-lo para a censura fez várias cópias e mandou para diversos cineclubes do país e festivais internacionais. O filme teve sua exibição proibida no Brasil, com o rótulo de subversivo.
- Olney foi preso, torturado e processado pela ditadura militar, quando uma cópia de "Manhã Cinzenta" foi encontrado na residência de um dos participantes do primeiro seqüestro político no país, embora o cineasta nada tivesse com a ação terrorista.
- Várias cenas do curta foram gravadas durante uma manifestação de estudantes no Rio, em 21 de junho de 1967. Saldo da manifestação: mil presos, 57 feridos e três mortos. O ator Sonélio Costa foi detido no Dops por dois dias.
- Algumas fontes datam o lançamento de "Manhã Cinzenta" como 1968.
DEPOIMENTO
Manhã Cinzenta rodado em 68/69 narra um golpe de estado em um pais fictício latino-americano. Em uma linguagem brechtiana a léguas de distância da sintaxe colonialista, a câmera atua não como um olho mecânico, mas como um sexto, um sétimo sentido de apreensão da realidade. É como um zoom no meio da testa diretamente plugado à glândula pineal. Uma montagem que é ao mesmo tempo paralela e convergente.
A violência nas ruas, a dor na alma, o documento e o fanstástico: um copião cortado a "peixeira". O Camponês de Riachão de Jacuípe (o autor do filme) circulando nas cidade de vidro da América, da África e da Ásia. Os olhos em brasa. A câmera surpreendendo o grito, o gemido e o espanto. Um filme sobre as conturbações populares nas grandes cidades. As passeatas, os comícios e as correrias que estão no filme são as que ocorreram no Rio em 68, mas a referência é globalizante. A intemporalidade e a inespacialidade da ação nos remete a Santiago (73), a Montevideu (73), a Buenos Aires (75), a Lisboa (74), a Ho Chi Minh - ex Saigon (75), Luanda (75), Daca (71), à estes momentos em que o povo se vê fisicamente envolvido em um momento histórico. É quando o Zé da Silva acorda de repente no olho do furacão.
Manhã é um filme sobre uma das matérias primas da história. Não é panfleto, é reportagem. Manhã Cinzenta nos faz chorar e nos ensina o mecanismo das grandes crises políticas...
Orlando Senna em 06/07/1975, Rio de Janeiro.