Comédia experimental de terror sobre as relações de poder num país imaginário. Uma família grotesca vive subordinada ao grande orixá babaloo. Uma fábrica de banana e outra de jiló controlam a economia local. Este longa-metragem proibido pela censura, reúne um elenco que mistura atores amadores, profissionais e não atores. O filme constrói uma metáfora selvagem da classe média brasileira durante o regime militar. deboche, experimentalismo e humor são usados para criticar o moralismo dos costumes da época.
Data de lançamento: 1971 (Brasil)
Direção: Elyseu Visconti
Autor: Elyseu Visconti
Produção: João Batista Ferreira
Juízo final da gramática cinematográfica, tudo em Os Monstros de Babaloo também pulsa em dois planos: visível e invisível. Eis aí porque tomo tamanha liberdade com este filme, a ponto de dizer que gostaria de tê-lo feito: ele não se fecha na carcaça de uma obra assustadoramente prima. Plaina dentro e em torno do cinema brasileiro, tal como um satélite, irradiando inspirações a quem quer se conectar com algo desconectado dos museus de boas lembranças. Em primeiro lugar, é um verdadeiro achado um personagem como Badu, o industrial da marmelada. Nunca vi nada parecido no cinema brasileiro até hoje. É uma espécie de Charles Foster Kane do inferno, assim como a fictícia ilha de Babaloo é também o castelo de Xanadu. A rima não é apenas auditiva - os planos que introduzem a mansão de Badu, entre as bananeiras tropicais, têm como referência direta o começo de Cidadão Kane (o mesmo a que me referi lá em cima, com a diferença de que não há placas proibindo a passagem). Badu, este monstro genial que parece ter saído de uma gravura de Goya, circula por entre o pomar, ao lado de seu assistente idiota, tendo como amantes as jovens Betty Faria e Tânia Scher. A família de Badu é ainda mais surpreendente: sua mulher, a pançudinha, é Wilza Carla. Sua filha, a inacreditável Helena Ignez. Há outros personagens/intérpretes igualmente magistrais, como o filho tresloucado e a velha de pernas tortas, mas a ausência de uma ficha técnica completa (as que possuo listam apenas alguns nomes de atores sem relacioná-los aos personagens) me impede de mencioná-los com exatidão. Contudo, não posso deixar de destacar a empregada Frinéia, vivida pela legendária Zezé Macedo, com direito a número musical. Os Monstros de Babaloo é uma chanchada psicodélica, de um preto e branco luminoso. Graças aos fantásticos atores, os personagens parecem existir naturalmente, sem que o absurdo de suas aparências monstruosas exclua a veracidade de cada um. Esta mistura é muito difícil, um privilégio que poucos cineastas experimentam. Outro aspecto encantador de um filme como Os Monstros de Babaloo é sua vocação poética, e aqui entendo a poesia não como uma linguagem pré-determinada, e sim como carta aberta aos sentidos, desligada de parâmetros e regras. Os Monstros de Babaloo é um filme desigual, desequilibrado, “fora de prumo”. Sua matéria prima é a feiúra e seu resultado, o sublime. Lembro-me de imagens fantásticas que dificilmente podem ser esquecidas: Wilza Carla comendo sardinhas numa fábrica e descendo as escadas com uma garrafa de champanhe; Helena Ignez provocando o irmão enjaulado; Badu num sítio repleto de lama e urubus; o sol batendo no carro em que Badu, com seus imensos óculos escuros, tira fotografia de postes de luz. Há ali, também, o retrato de um país monstruoso igualmente enjaulado por uma ditadura militar. Mas a ausência de um discurso político claro e didático torna este retrato talvez bem mais abrangente. O filme de Elyseu Visconti possui a capacidade de se comunicar através do não-dito, do não-aguardado. Sua linguagem possui a beleza e a tristeza das ressacas marítimas em dia de céu nublado. Poderia ainda falar de outras qualidades e de outras questões relacionadas ao filme, mas então retornaria à condição de um “crítico” e sentiria a necessidade de rever o filme, talvez ler textos correlatos... e todo o propósito da pauta em questão iria por água abaixo. Donde posso concluir o seguinte: são incompatíveis, para mim, a experiência de escrever sobre um filme de outro autor e, ao mesmo tempo, a missão de tratá-lo como se fosse meu. Aqui, devo confessar o meu fracasso: não estou conseguindo ir além de mim mesmo neste texto. Se me estendi a respeito da minha angústia inicial, vou ser breve na conclusão: nunca antes havia pensado com vagar sobre “o filme que gostaria de ter feito”, algo semelhante a querer viver “outra vida” que não a minha. Por outro lado, sinto como “meus” os filmes dos meus amigos, incluindo aqueles que ainda estão sendo feitos. Ou seja, o cinema é, para mim, menos uma obra, um filme, que o sentimento de amizade e contemporaneidade que cria laços entre projetos comuns e mesmo contraditórios. A expressão correta é mesmo aquela que Jairo Ferreira celebrou: sintonia intergalaxial. Cinema é por aí, eu acho. Luís Alberto Rocha Melo Contracampo