Enquanto aguardam novas coordenadas, dois revolucionários se escondem na igreja de uma fictícia Porto Seguro, cidade tomada por injustiças, desmandos, misticismo e desigualdade. Para manter seu esconderijo, um dos guerrilheiros finge ser o novo padre da cidade. Rezando missas e em constante contato com o poder local, o revolucionário parece estar acreditando mais do que deveria em sua fantasia...
Direção: André Faria
Música composta por: Roberto Carlos, Luis Eduardo Aute, Guilherme Guimarães Vaz, Daniel Violiati
Roteiro: André Faria, José Celso Martinez Corrêa
Produção: Luiz Augusto Sacchi, Marcos Guimarães, João Guerra
- "Prata Palomares" foi proibido pela censura durante 10 anos. Selecionado para participar do Festival de Cannes, o filme teve uma única exibição clandestina na França.
André Faria foi entrevistado pelo Jornal Comunicação de Curitiba André, você possui um único filme como realizador, que foi proibido de ser exibido no Brasil por mais de dez anos. É o ‘Prata Palomares’, de 1970, não é? Sim, exatamente. O filme ficou no ‘Index da Embrafilme’, que era pra onde iam os nomes dos cineastas malditos, contrários ao regime, por nove anos e 11 meses. Foi um dos últimos filmes a ser liberado pela ditadura para a exibição pública. Eles alegavam que o filme ia contra a boa moral e os costumes da sociedade. Diziam que a cena na qual se quebram os santos criava atritos com a Igreja Católica. Os censores inventaram muitas restrições para o ‘Prata Palomares’, justamente por esse caráter crítico que ele apresentava, de criticar Deus e todo mundo. E como foi o processo de interdição do filme? Lembro que quando estávamos no processo de finalização no Rio, recebemos a visita de uma emissária francesa, que vinha em nome do Festival de Cannes escolher filmes para a mostra anual dos realizadores em Paris. Ela viu o filme e perguntou quando ele estaria pronto para ir para a mostra. Fiquei muito feliz com isso, mas para que o filme pudesse ir para o exterior, era necessário um selo que certificasse que a produção era brasileira. E quem expedia esse selo era o extinto Instituto Nacional de Cinema (INC). Lembro que finalizamos o filme rapidamente e enviamos para o INC autorizar. Lá, dizem que os censores viram dois rolos e pediram para parar a projeção. E, quando isso acontecia, era coisa grave. Lembro que um amigo que trabalhava lá ligou pra mim desesperado, pedindo que eu fugisse o mais depressa possível, pois eles tinham ligado para um tal de coronel Damião, do Serviço de Inteligência Nacional (SNI). Quando soube disso, eu pensei: ‘mas que história é essa do filme não passar até o fim?’. Fui correndo até o INC, cheguei na portaria e perguntei pelo Damião. Quando eu entrei na sala dele, eu perguntei se ele conhecia um filme chamado ‘Prata Palomares’. Ele disse que sim e que o filme ia ficar preso na sala dele até segunda ordem. Então eu contrabandeei o filme para Cannes, onde ele fez bastante sucesso entre os críticos. E como o filme conseguiu ser exibido na França? Oficialmente, ele nunca foi exibido lá. Fizemos uma projeção clandestina somente para alguns críticos que foram proibidos de divulgar as suas opiniões, pois diziam que eu correria risco de vida ao voltar para o Brasil se isso acontecesse. No dia marcado para a exibição, a coordenação do festival fechou o cinema e colocou cartazes na porta dizendo que o governo brasileiro havia interditado o filme de ser exibido ali. Você não realizou nenhum outro filme além de ‘Prata Palomares’. Por quê? Às vezes penso que é como se eu fosse o último da minha turma, daquele povo que fazia cinema de contestação de antigamente. Eu simplesmente não quis me vender aos desmandos da ditadura, não quis fazer filmes nos moldes deles. Eu fiz um filme e lutei bravamente para que ele fosse divulgado. E consegui, depois de muito tempo. Não me afastei definitivamente do cinema depois disso. Até hoje, estou em constante contato com a área, prestando auxílio a realizadores e estudantes de cinema que também procuram, como eu já procurei no passado, fazer do cinema uma forma de expressão ideológica.