Jovem pobre e bonita é contratada por um promotor de vendas para ser a garota propaganda de um novo sabonete. O sucesso é grande e Bebel ganha popularidade, mas tudo pode ser passageiro.
Data de lançamento: 1968 (Brasil)
Direção: Maurice Capovilla
Música composta por: Carlos Imperial
Autor: Ignácio de Loyola Brandão
Roteiro: Maurice Capovilla, Roberto Santos, Mário Chamie, Afonso Coaracy
Crítica por Carlos Alberto Mattos
Os originais do romance “Bebel que a Cidade Comeu” ainda estavam datilografados e sem título quando Maurice Capovilla escreveu sua adaptação para o cinema. Capovilla e o escritor Ignácio de Loyola Brandão eram colegas de jornal e de boemia na noite paulistana de 1967. Naquele ambiente, enquanto bebiam e criavam, artistas e intelectuais também se preocupavam com as diabólicas engrenagens da indústria cultural. Bebel, Garota Propaganda, o filme, acabou por refletir tudo isso, na forma de uma crônica social e política da vida urbana brasileira naquela década. As cenas foram rodadas em bares, restaurantes e estúdios de TV freqüentados pelo show business da época, com participação de diversos cantores, jornalistas e cineastas no elenco. A protagonista, moça pobre vinda de bairro popular, é contratada como modelo de anúncio de sabonete e passa a alimentar sonhos de fortuna e estrelato. No entanto, como toda figura de outdoor cujo destino é ser rapidamente encoberta pela próxima atração, Bebel também verá as luzes se apagarem sobre ela. Em seu primeiro longa-metragem, Capovilla já sinalizava o grande tema de sua carreira: a curta vida dos heróis de pés-de-barro. Ele talvez seja o autor que mais trabalhou o tema da ascensão e da decadência no cinema brasileiro, tanto em documentários (Subterrâneos do Futebol, O Último Dia de Lampeão), como em filmes de ficção (O Profeta da Fome, O Jogo da Vida, Harmada). Bebel integra-se à perfeição nesse cortejo de personagens que a sociedade se encarrega de iludir e conduzir a um inevitável fracasso. Mas esse raro e legítimo representante do Cinema Novo paulista é também uma reflexão sobre os impasses da esquerda num momento em que a ditadura militar ainda apresentava sua face menos sinistra. Capovilla criou para seu amigo Fernando Peixoto um papel que não existia no livro de Brandão, o do jornalista no encalço de Bebel. Era uma forma de o cineasta veicular suas próprias indagações sobre o tema. Da mesma maneira, inventou a cena em que o estudante engajado deixa patente sua alienação frente à realidade do bairro operário. Assim como Terra em Transe, de Glauber Rocha, faria logo em seguida, Bebel também confronta os discursos sobre “o povo” com o povo de verdade. O filme se destaca, ainda, pela caracterização da atriz Rossana Ghessa e pela fotografia de Waldemar Lima (o mesmo de Deus e o Diabo na Terra do Sol).O modelo, aqui, não eram as imagens brutas do cordel nordestino, mas o brilho noturno e enganador da publicidade.